Era a canção "Bring Me To Life". Estava sempre a ouvi-la na rádio, como se alguém estivesse a tentar enviar-me uma mensagem. Apercebi-me que era a minha canção. Eu não estava a viver. Estava a existir. Existir num casamento que, visto de fora, parecia estar bem, mas que, por detrás das portas, era sem amor e cheio de dor.
Estive numa relação abusiva durante 10 anos. Não via uma saída. Tudo o que eu via eram os seus olhos zangados, condescendentes e paternalistas. Tudo o que ouvia eram os meus gritos silenciosos. Ao longo dos anos, pensei que algo estava errado, mas sempre que entrávamos em contacto com as agências, o seu comportamento era explicado. A atenção centrava-se sempre nele e na sua depressão. As minhas marcas vermelhas, nódoas negras, auto-confiança abalada, isolamento e constante estado de alerta máximo eram sempre justificados ou ignorados por aqueles que me podiam ter ajudado. Nas poucas ocasiões em que tentei falar, fui sempre repreendida por não ter sido suficientemente solidária ou recebi um aceno de cabeça simpático antes de a atenção se voltar novamente para ele.
Aprendi a não falar. Falar significava castigo. Por isso, limitei-me a continuar a existir o melhor que pude. O meu círculo social tornou-se muito pequeno, pois não podia sair. Perdi amigos. A vida era completamente solitária.
Só precisava de uma pessoa para validar o que me estava a acontecer. Depois veio uma agressão que alterou permanentemente a minha capacidade de andar corretamente.
Os únicos dois amigos que eu podia ver regularmente porque tinha uma "razão válida" para o fazer, aos olhos dele, começaram a ver. Viram marcas. Viram medo. Viram-me a mim. Nesta altura, havia ameaças à minha vida, levantava-me com medo e ia para a cama com medo... imagine passar todos os momentos em que estava acordada com medo.
Uma das minhas amigas telefonou comigo para a Women's Aid, que me encaminhou para um serviço local de apoio. Tomei a decisão de me ir embora e saí no espaço de 4 dias. Foi só nessa altura que aprendi verdadeiramente.
Vim a saber, através do The Freedom Program (Programa de Liberdade) dirigido pelo serviço de proximidade, que tinha estado a viver com gaslighting e Controlo Coercivo desde o primeiro encontro. Compreendi que a violação acontece de facto dentro do casamento e que é errado. O sexo não é um dever ou um direito. O meu mundo desmoronou-se quando percebi que tinha sido abusada física, emocional, sexual, financeira e coercivamente durante os 10 anos da relação. Mas comecei a reconstruir o meu mundo pouco a pouco com a ajuda de especialistas. Recuperei o controlo da minha vida e comecei a assumir o meu próprio poder.
Não posso dizer que a marca da violência doméstica alguma vez se desvaneça. Para mim, não desaparece, pois tenho uma recordação diária de dores, problemas de mobilidade e outros problemas de saúde causados pela minha experiência. Mas agora o meu mundo é totalmente diferente. É rico em amigos, amor e objectivos.
Atualmente, trabalho para um dos serviços de proximidade que me apoiou. Dirijo um grupo de mulheres que trazem as vozes dos sobreviventes para espaços profissionais e estatutários. Espero que, de alguma forma, possa ajudar outros a compreender como dar vida a outra pessoa.